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domingo, 7 de junho de 2020

Onça-parda


Onça-parda


Caique Gotarde Ottoni Pinto1
Gabriel de Lima Dario1
Luana de Almeida Aldigheri1


1 Discentes do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas do IFSP - SRQ. Trabalho desenvolvido na disciplina de Ecologia, sob orientação da docente Profa. Dra. Glória Cristina Marques Coelho Miyazawa.

Nome Científico: Puma concolor
Família: Felidae
Dieta: Carnívora
Atividade: Crepuscular/Noturno
Tamanho: Em média 1,5 a 2,75m
Peso: 42 a 72 kg
Ocorre: Em todos os biomas do Brasil

Conservação: Vulnerável – Ameaçada de extinção. 


Foto: Untamed Expeditions.


Sobre a Espécie

A onça-parda, também conhecida aqui no Brasil como, suçuarana, onça-vermelha e leão-baio, é uma das maiores espécies de felinos do mundo, e é o segundo maior felino das Américas, ficando atrás apenas da onça-pintada.

Foto: Regina Cardozo/VC no TG.


Características

A onça-parda possui pelagem macia, de coloração acastanhada por todo o corpo, à exceção da região ventral que é mais clara.


No nordeste brasileiro, a coloração da onça-parda tende a ser marrom-avermelhada, enquanto em áreas abertas tende a ser mais clara. A pelagem também varia com a idade; os filhotes nascem com pintas pretas em sua pelagem e vai clareando, até o 18º mês, que é quando a onça-parda atinge a fase adulta.


Foto: Cristiano Xavier e João Marcos Rosa.

O tamanho e o peso variam entre 1,5 a 2,75m e 42 a 72Kg. Os machos são maiores que as fêmeas, que possuem peso entre 34 e 48Kg. O tamanho e o peso podem variar, conforme a região de ocorrência.

É um animal de corpo delicado e alongado, o que lhe dá muita agilidade. As suçuaranas são boas saltadoras e atacam as presas pulando em suas costas. Saltando do chão, seu pulo pode alcançar até 5,5 metros de altura.

O puma é um dos poucos felinos que não rugem. Ao invés deste som característico para a família, eles emitem um som similar ao notado em gatos domésticos quando estão estressados ou com muito medo ou podem se comunicar por um silvo estridente.




Foto: Cristiano Xavier e João Marcos Rosa.


Alimentação

A onça-parda é um mamífero exclusivamente carnívoro, oportunista, se alimentando de vários animais silvestres, encontrados em seu território.

No Brasil, a onça-parda se alimenta quase que exclusivamente de mamíferos de pequeno a médio porte, provavelmente por conta da competição de alimentos com a onça-pintada. Entretanto, no sul do Brasil e em regiões onde a onça-pintada foi praticamente extinta, a onça-parda representa o maior predador do local, sendo o animal do topo da cadeia alimentar.

Em algumas regiões, é possível ver sobreposição de território entre as onças-pardas. Quando isso ocorre, elas evitam o contato com o outro indivíduo da mesma espécie para não brigarem e manter suas energias para caçar e sobreviver.


Foto: Karen Arnold por Pixabay.


Distribuição Geográfica e Estimativa Populacional

A onça-parda possui ampla distribuição em toda a América, podendo ser encontrada desde o Canadá, passando pela América Central, pelo Brasil e, chegando até o sul do Chile e Argentina. No território brasileiro, ela aparece em todos os nossos biomas, se adaptando, facilmente, ao local onde vive. 

A população na América Central e do Sul é muito maior que na América do Norte, porém, em ambas as localidades, não há muitos estudos sobre a espécie, o que dificulta saber o número exato de indivíduos.

Apesar da sua fácil adaptação aos diferentes locais e estar amplamente distribuída, sua população está em declínio. Antes da chegada dos colonizadores europeus na América, seu número de indivíduos era muito superior comparado aos dias atuais sendo, por isso, considerada uma espécie pouco comum ou até mesmo rara, em diversas regiões.

Devido à perda de habitat, caça ilegal e esportiva, queimadas, dentre outros motivos o Puma concolor é considerado uma espécie extinta nos EUA, não sendo possível reverter o dano causado a essa espécie, o que mostra como muitas ações humanas têm impacto direto na natureza.

Um estudo feito por Azevedo et al. (2011), mostra estimativas populacionais para os diferentes biomas brasileiros, que se encontram descritos a seguir.

No Amazonas, estima-se que existam menos de 10.000 indivíduos, devido ao desmatamento contínuo da floresta Amazônica, tendo ocorrido um declínio de, aproximadamente, 10% no tamanho populacional da espécie, nos últimos 21 anos.

No Cerrado, a onça-parda também é amplamente distribuída, mas nesse bioma estima-se que há menos de 2.500 indivíduos e, neste bioma, estima-se que em 21 anos haverá uma queda de 10% devido a expansão agropecuária, caça ilegal ou retaliação por predação de animais domésticos.

Na Caatinga, a onça-parda é amplamente distribuída, porém devido à perda de habitat, expansão da matriz energética eólica, mineração e exploração da matéria para carvão e lenha, o tamanho da população venha caindo continuamente, havendo menos de 2.500 indivíduos nesta região.

No Pantanal, a onça-parda era muito frequente, mas devido a caça esportiva, abate preventivo, retaliação por predação de animais domésticos e queimadas, a população do animal tem uma contínua queda no número de seus indivíduos, havendo cerca de 1000 indivíduos, neste bioma.

Na região da Mata Atlântica, a onça-parda sofre constantemente a perda de seu habitat devido a expansão urbana, atropelamentos, queimadas, retaliação por predação de animais domésticos etc. Estima-se que nessa região o número de indivíduos esteja abaixo de 1000. O futuro da população desse animal na Mata Atlântica é incerto, devido ao isolamento dos animais por pastagens para o gado e plantações.


Figura 1. Mapa mostrando a distribuição do Puma concolor nas Américas. Fonte: Lilian Bonjorne de Almeida e Francisco Chen de Araujo Braga, em Azevedo et al. (2011).


Foto: Bas Lemmers.


Habitat

A Onça-parda é um dos felinos mais adaptados aos diferentes biomas do mundo, podendo viver em quase todo o globo terrestre, com exceção da Tundra Ártica, a espécie pode viver em florestas úmidas tropicais, subtropicais, pântanos, regiões montanhescas com altitudes acima de 3000m, regiões frias e áridas. O Puma concolor também é capaz de viver em regiões abertas com pouca cobertura vegetal.

Delimita seu território com urina, fezes, arranhões e secreções da glândula anal espalhadas nas árvores. O tamanho de seu território varia, podendo chegar a 300 km², possuindo obrigatoriamente, um local seguro para abrigar-se.


Foto: Brasília é o bicho, 2019.


Reprodução

A suçuarana é um animal solitário e territorialista, forma pares apenas na época de reprodução, ambos os sexos da espécie atingem maturidade sexual a partir dos 24 meses.

O período de gestação da fêmea varia entre 82 a 98 dias, com um número de filhotes entre 1 a 6, que nascem com cerca de 400 gramas. Os filhotes nascem com pintas pretas e olhos azuis. As onças-pardas vivem de 8-10 anos, mas podem chegar a 13 anos.



Foto: Cristiano Xavier e João Marcos Rosa.



Curiosidades

  • Durante muito tempo, as suçuaranas foram mortas sempre que encontradas porque, às vezes, atacam o gado. Atualmente, em muitos lugares elas são protegidas por leis que limitam ou proíbem a matança e a caça de animais selvagens, mas nem sempre essa lei é respeitada.


  • Pesquisas comprovaram que a suçuarana é o predador mais eficiente e mais flexível entre os felinos. Ela consegue alimento em 75% das vezes que parte para o ataque.



Referências

AZEVEDO et al . Avaliação do risco de extinção da Onça-parda: Puma concolor (Linnaeus, 1771) no Brasil . Biodiversidade Brasileira, v. 5, n.1, p. 107-121, 2013. Disponível em: https://www.icmbio.gov.br/revistaeletronica/index.php/BioBR/article/view/377/285. Acesso em: 31 maio 2020.

ONÇA-PARDA, Suçuarana. Inventário e Caracterização da Fauna de Vertebrados Selvagens de Campinas. Campinas: Embrapa Monitoramento por Satélite, 1993. Disponível em: http://www.faunacps.cnpm.embrapa.br/mamifero/onca_p.html. Acesso em: 31 mai. 2020.

PROCARNIVOROS. Onça-parda. Disponível em: http://procarnivoros.org.br/animais/onca-parda-puma-concolor/. Acesso em: 31 mai. 2020.

PROJETOFRITZMULLER. Puma concolor. Disponível em: http://projetofritzmuller.org/fauna/puma-concolor/. Acesso em: 31 mai. 2020.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Lobo-guará

LOBO-GUARÁ


Diego Henrique Mendes1
 Gilvania A. B. dos Santos1
Italo Fazzani1

1 Discentes do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas do IFSP - SRQ. Trabalho desenvolvido na disciplina de Ecologia, sob orientação da docente Profa. Dra. Glória Cristina Marques Coelho Miyazawa.

A fauna brasileira é rica em diversidade de espécies. Cada um dos biomas brasileiros possui suas espécies nativas, sendo algumas delas conhecidas por serem espécies carismáticas, consideradas espécies-bandeiras de campanhas de conservação, amplamente divulgadas pelo país. Dentre estas espécies encontramos o Chrysocyon brachyurus, conhecido popularmente como lobo-guará (figura 1), que pertence à mesma família dos cachorros, lobos e raposas, a família Canidae.
Apesar de ser da família Canidae, não pertencem ao gênero Canis (2n=78), como lobos e cachorros ou Vulpes (2n=36 a 2n=72), que são as raposas. O lobo-guará (2n=76) está mais próximo do gênero latino americano Dusycion, pelos seus marcadores genéticos (MATTOS, 2003).

O lobo-guará pode ser considerado um mamífero de porte médio, possuindo cerca de 1 metro e meio de comprimento, 90 centímetros de altura e pesando entre 20 e 30 quilos.  Geralmente estes animais habitam áreas abertas como campos e matas de capoeira, suas populações são distribuídas por diversas regiões do Brasil, sendo encontrado em 17 dos 26 estados brasileiros e também em alguns países vizinhos, como mostra a figura 2. Porém, vale destacar, que há uma grande concentração de populações habitando o bioma Cerrado (PAULA et al, 2013).

Figura 2. Distribuição geográfica Lobo-guará. 


A ampla distribuição geográfica se deve aos seus hábitos alimentares, os quais variam de acordo com seu habitat. Os indivíduos desta espécie são animais onívoros e oportunistas, que podem se alimentar desde invertebrados, como alguns artrópodes à vertebrados maiores, como veados-campeiros. Sua dieta também pode consistir numa grande diversidade de frutos em casos de ausência de presas (MICHALSKI; BARBOLA; LUZ, 2013).

Figura 3. Lobo-guará com uma presa na boca. 

Levando em consideração que a estrutura populacional está intimamente associada a seu habitat, os processos que modificam as características deste ambiente afetam diretamente uma dada população. Assim, em virtude do cerrado ser atualmente um dos ambientes mais afetados por ações antrópicas, impacta em uma taxa de perda de habitat considerável que afeta as populações do lobo guará.  Vale lembrar que o cerrado é um dos maiores biomas da América do Sul, ocupando a maior parte da região central do Brasil, sendo riquíssimo em biodiversidade (RODRIGUES, 2009).
A degradação do cerrado surtiu um grande impacto nas populações do lobo-guará, que são classificadas como vulneráveis com um alto risco de extinção, no Brasil. Além das pressões sofridas em seu habitat, como queimadas e desmatamento por latifundiários, outra ação antrópica exercida sobre estes animais, foram os constantes atropelamentos em rodovias, os quais ajudaram a coloca-los em uma posição vulnerável. Diniz; Lazzarini e Ângelo (1999) destacam que um dos fatores agravantes do risco de extinção se deu pela dificuldade da conservação ex-situ destes animais, os quais são acometidos por dificuldades de reprodução e sobrevivência dos filhotes, devido a altas taxas de mortalidade por infecções bacterianas e virais.
Os problemas de sobrevivência dos filhotes se agravam, se considerarmos o lobo-guará, como uma espécie monogâmica, os quais se acasalam apenas uma vez por ano, gerando de 2 a 5 filhotes. Apesar de haver um cuidado parental com os filhotes, a fêmea pode abandoná-los ou até matá-los devido a perturbações ou ambientes estressantes, tornando-se um fator agravante para projetos de conservação (SOUSA, 2000).

Figura 4. Fêmea de Lobo-guará com seu filhote. 



REFERÊNCIAS
DINIZ, Lilian Stefani Munaó; LAZZARINI, Stella Maris; ANGELO, Maria José. Problemas médico-veterinários de Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) em cativeiro. Revista de Educação Continuada em Medicina Veterinária e Zootecnia do CRMV-SP, v. 2, n. 2, p. 34-42, 1999. Disponível em: Acesso em: 29 de mai. 2020.
ICMBIO, Sumário Executivo do Plano de Ação Nacional para a Conservação do Lobo-guará. Brasília: Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, 2011. Disponível em: Acesso em: 22 de mai. 2020.
MATTOS, Paulo Sergio Ribeiro de et al. Epidemiologia e genética populacional de lobos guarás, Chrysocyon brachyurus (Illiger 1815) (Carnivora, Canidae) no nordeste do estado de São Paulo. 2003. 85 p. Tese (Doutorado em Ecologia e Recursos Naturais) - Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2003. Disponível em:
Acesso em: 24 de mai. 2020.
MICHALSKI, L. J.; BARBOLA, I. F.; LUZ, P. M. Ecologia trófica do lobo-guará, Chrysocyon Brachyurus (Illiger, 1811), no Parque Estadual do Guartelá, Tibagi, PR, Brasil. Revista Brasileira de Zoociências, v. 15, n. 1, 2, 3, 2013. Disponível em: Acesso em 22 de mai. 2020.
PAULA, R. C. et al. Avaliação do risco de extinção do lobo-guará Chrysocyon brachyurus (Illiger, 1815) no Brasil. Biodiversidade Brasileira, n. 1, p. 146-159, 2013. Disponível em: Acesso em 21 de mai. 2020
PAULA, R.C.; MÉDICI, P.; MORATO, R.G. (org.) 2008. Plano de ação para a conservação do Lobo-guará: análise de viabilidade populacional e de habitat. Brasília: IBAMA. 158p. Disponível em: Acesso em 21 de mai. 2020.
RODRIGUES, Manoel Ludwig da Fontoura. Diversidade genética e estrutura populacional do lobo-guará. 2009. 42 p. Dissertação (Mestrado em Zoologia) - Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2009. Disponível em: Acesso em: 24 mai. 2020.
SOUSA, Leandro Ruas. Chrysocyon brachyurus: ecologia e comportamento do Lobo-guará. 2000. 22p. Trabalho de Conclusão de curso (Licenciatura em Ciências Biológicas) - Centro Universitário de Brasília, Brasília, 2000. Disponível em: Acesso em: 29 de mai. 2020.

Baleia Jubarte


BALEIA JUBARTE

Natália Rodrigues de Oliveira Pinto1 e Pedro Henrique dos Santos1

1 Discentes do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas do IFSP - SRQ. Trabalho desenvolvido na disciplina de Ecologia, sob orientação da docente Profa. Dra. Glória Cristina Marques Coelho Miyazawa.

A baleia jubarte (Megaptera novaeangliae) também conhecida como baleia corcunda, tem a origem de seu nome científico do grego antigo Megaptera que significa “grandes asas”, pois quando salta por alguns segundos, desafia as leis da gravidade ao tentar voar com sua nadadeiras peitorais que podem medir ⅓ de seu comprimento total, sendo comparado ao de um pássaro. Quem tem o privilégio de presenciar a jubarte saltando, pode vir a ficar mais impressionado ao descobrir que ela pesa cerca de 35 a 40 toneladas e mede 16 metros de comprimento em média.

 Figura 1. No momento do pulo, as enormes nadadeiras peitorais das baleias se comparam às asas de um pássaro (Foto: Reprodução/Douglas Craft).

Técnicas de identificação

A população de baleias jubartes fazem parte de um catálogo de animais foto identificados. O que seria esse registro e qual a importância para tal espécime?

Bem, as primeiras estimativas do número de baleias jubartes na costa do Brasil utilizaram a técnica de marcação e recaptura, que consiste em identificar a nadadeira caudal da baleia e fazer um registro fotográfico dela, porque essa região equivale a uma digital do animal por possuir um desenho único, logo, a recaptura é quando o mesmo indivíduo é fotografado novamente.

Figura 2. A nadadeira caudal da jubarte é equivalente às impressões digitais dos humanos,  possuindo um desenho único (Foto: Sergey Uryadnikov/Shutterstock).

Quanto mais jubartes forem registradas, maior as chances de reavistagem, que possibilita o controle da estimativa populacional e o crescimento ao longo dos anos. Com as fotos feitas entre 1996 e 2000, a população foi estimada em cerca de 2 mil jubartes.

Com o tempo uma técnica de estimativa populacional mais eficaz começou a ser usada, conhecida como transecção linear, que consiste basicamente em traçar linhas de amostragem de forma paralela e posicionadas perpendicularmente à costa, ou em zig-zag, monitorando deslocamentos e permitindo contar o número de indivíduos por segmento desta linha (WEDEKIN, 2011). Essa identificação pode se dar por levantamentos aéreos e/ou cruzeiros sistemáticos de embarcação.

Figura 3. Representação esquemática do esforço de procura dos observadores em relação à aeronave. Área cinza representa região de maior esforço de observação (Figura: modificada de Buckland et al., 2001 apud WEDEKIN, 2011).

Figura 4. Linhas de transecção dos sobrevoos para estimar a densidade de baleias-jubarte nos anos de: 2001-2004, 2005 e 2008. Abreviações correspondem aos estados da federação brasileira amostrados em cada período. Linha cinza tracejada corresponde à isóbata dos 500 metros (Figura: WEDEKIN, 2011).

Em 2001, foram registradas 2.230 baleias no litoral da Bahia e do Espírito Santo e, a partir daí, houve uma taxa de crescimento significativo. Dados recentes, levantados em 2019, apontam para cerca de 17 mil jubartes nesta mesma área.

A recuperação desta espécie é uma vitória para os biólogos envolvidos, pois a cada ano a estimativa se aproxima do número de baleias jubartes original da espécie na costa brasileira, que girava em torno de 25 a 30 mil antes do período de caça comercial que aconteceu, principalmente, na primeira metade do século passado.

O vídeo abaixo mostra o censo realizado em 2019, com recuperação no número de baleias.



Ecologia populacional e reprodutiva

Cosmopolitas, as baleias jubartes migram anualmente para regiões tropicais e subtropicais durante o inverno, vindo das áreas de alta latitude, a procura de águas mais quentes e rasas para acasalamento e cria dos filhotes. O custo energético da migração e jejum durante o período reprodutivo é alto, principalmente para fêmeas lactantes. Com isso o Arquipélago dos Abrolhos, é uma importante área de reprodução e cria no Brasil, devido à alta frequência de grupos contendo filhotes (BISI, 2006). Os primeiros meses da vida dos filhotes de baleia jubarte envolvem um longo período de amamentação e um intenso contato entre mãe e filhotes, nas áreas de reprodução.

 Figura 5. As rotas de migração (Foto: Agência Ambiental Pick-upau).

É considerada uma espécie de vida longa e reprodução lenta. As fêmeas têm uma gestação de 11 a 12 meses e os filhotes nascem medindo entre 4 e 4,5 metros de comprimento. Durante o crescimento do filhote, para evitar acidentes, ataques ou que ele se perca, existe um contato corporal intenso com sua mãe. Esse contato, se encerra apenas ao final do primeiro período de alimentação e a chegada do grupo de volta às águas tropicais. O filhote pode permanecer mais um tempo com sua mãe ou finalmente se juntar a outro grupo. E embora crie independência, demora entre 4 e 5 migrações para atingir a maturidade sexual com aproximadamente cinco anos de vida, podendo viver quase 50 anos de idade.

Uma curiosidade é que as fêmeas são sempre as últimas a migrarem com seus filhotes pois, precisam esperar que eles aumentem sua camada de gordura e aperfeiçoem suas musculaturas para aguentar a viagem.

Figura 6. Drone registra os momentos após o nascimento de um filhote de baleia jubarte (Foto: Marine Mammal Research).

Dentro da distribuição conhecida para a espécie na costa brasileira, a abundância relativa de baleias cresce continuamente a partir do início de julho, atingindo um pico no final de agosto e começo de setembro. Após o pico, a abundância decresce até o final de novembro, quando a maioria dos indivíduos já retornou para a área de alimentação.

O grupo social da espécie está diretamente ligada ao seu ciclo migratório, sendo tipicamente pequeno e instável, com exceção dos competitivos ou de acasalamento, constituídos de uma fêmea que pode ou não estar amamentando o filhote, acompanhados de pelo menos dois machos, chamado de escorte, sem parentesco com o filhote. Acredita-se que esses escortes estejam esperando para acasalar com a fêmea, ou impedir que outros machos se aproximem dela.

Figura 7. Grupo social de baleia jubarte, ligado ao seu ciclo migratório (Foto: Tomas Kotouc / Shutterstock.com).

Comportamento
A baleia jubarte é conhecida mundialmente por seus grandes saltos. O motivo desse salto, ainda é estudado, existindo a hipótese de que seja uma forma de comunicação com seu grupo ou, um macho tentando impressionar a fêmea. Outra hipótese é que seja uma forma encontrada por esse animal para se livrar de parasitas e cracas que ficam aderidas em seu corpo.
Figura 8. Cracas fixadas nas costas de uma baleia (Fonte: Site Quero ver baleia - Amigos da Jubarte).
Em relação ao seu comportamento, a baleia Jubarte pode ser considerada um animal muito comunicativo. Por exemplo, nas áreas de reprodução, os machos produzem extensas e complexas vocalizações, que pode tanto atuar como um display sexual para atrair as fêmeas como para afugentar outros machos de uma determinada área.
O seu método de respiração consiste em imergir na superfície para que ocorram as trocas gasosas em seus pulmões. Como todo cetáceo, ela ejeta através de seu orifício respiratório um esguicho d’água, onde na verdade está liberando ar quente que ao entrar em contato com o exterior, sofre condensação. Após esse processo, ao mergulhar, um tampão fecha este orifício, impossibilitando a entrada de água. Possui também, a capacidade de permanecer submersa por um período de 21 minutos, devido ao grande tamanho de seus pulmões e, consequentemente, a grande quantidade de oxigênio que absorve. Usa como um outro método, a diminuição da frequência cardíaca com a finalidade de reduzir o fluxo de sangue, fazendo o oxigênio circular lentamente.
Figura 9. Anatomia da baleia Jubarte (Foto: Portal Toda Matéria).

Alimentação
Essa espécie possui um período de alimentação durante o verão para acumular energia, na forma de gordura. Esta reserva energética permite que suportem um jejum de alguns meses, durante a estação reprodutiva. Por não possuir dentes, a baleia jubarte tem como principal fonte e base alimentar os krills (nome dado a um conjunto de animais invertebrados semelhantes ao camarão). A migração se ajusta à disponibilidade sazonal do krill, que não existe em águas tropicais. Pequenos cardumes de peixe podem entrar em sua dieta.
Figura 10. fotografia ampliada de krills (Foto: David Tipling).

Em grupo, as baleias possuem uma técnica de caça única conhecida como “rede de bolhas”, onde uma delas mergulha em círculos soltando bolhas, formando uma coluna e aprisionando os krills. Logo em seguida, outra baleia nada em direção a superfície com a boca aberta a fim de engolir a maior quantidade de presas que conseguir. Neste processo existe um revezamento para que todas se alimentem.
Figura 11. Esquema representando técnica de caça em grupo conhecida como "rede de bolhas". (Portal Toda Matéria)

            O vídeo abaixo mostra em detalhes este processo.


A alimentação do filhote consiste na amamentação de até 400 litros de leite por dia. Neste processo a mãe se posiciona verticalmente com a cabeça voltada para o fundo do mar e a cauda fora da água. Acredita-se que possuem esse costume para que as glândulas mamárias fiquem próximas da superfície, facilitando o processo de respiração do filhote. Ao completar 10 meses, esse filhote começa a desmamar e, por um tempo, intercala o leite materno e a ingestão de krills. Ao final do período de alimentação, as baleias migram de volta para as águas quentes, onde permanecem sem comer por meses até o próximo verão do hemisfério sul, utilizando a espessa camada de gordura para sobreviver.

Referências

BALEIAS: por que protege-las. Agência Ambiental Pick- upau. Disponível em: <https://www.pick-upau.org.br/mundo/baleias/baleias.htm>. Acesso em: 31 maio. 2020

BISI, T. L. Comportamento de filhotes de baleia jubarte, Megaptera novaeangliae, na região ao redor do arquipélago dos abrolhos, Bahia (Brasil). 2006. 90f. Dissertação (Mestrado em Ciências, Área de Ecologia) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006.

DIANA, J. Baleia Jubarte. Site Toda Matéria.  2018. Disponível em: <https://www.todamateria.com.br/baleia-jubarte/>. Acesso em: 31 maio. 2020.

PORTILHO, G. Por que as baleias ejetam água? Revista Mundo Estranho. São Paulo, 04 de jul. de 2018. Disponível em: <https://www.google.com/amp/s/super.abril.com.br/mundo-estranho/por-que-as-baleias-ejetam-agua/amp/>. Acesso em: 31 maio. 2020.

PROJETO BALEIA JUBARTE. Disponível em: . Acesso em: 31 maio. 2020

QUERO ver baleia. Amigos da Jubarte. A craca e as baleias Jubarte. Disponível em: https://www.queroverbaleia.com/single-post/A-Craca-e-as-Baleias-jubarte. Acesso em: 31 maio. 2020.

WEDEKIN, L. L. Ecologia populacional da baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae Borowski, 1871) em sua área reprodutiva na costa do Brasil, Oceano Atlântico Sul. 2011. 144f. Tese (Doutorado em Ciências Biológicas – Zoologia) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2011.

Briófitas e Musgos

Briófitas e Musgos, o que são e pra que servem?Uma jornada guiada pelo Polytrichum commune e outras espécies da família Polytrichaceae

Marina Cordovil de Oliveira1


1 Discente do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas do IFSP - SRQ. Trabalho desenvolvido na disciplina de Ecologia, sob orientação da docente Profa. Dra. Glória Cristina Marques Coelho Miyazawa.


Você sabe o que são briófitas? Já ouviu falar em musgo? Sabe qual a diferença entre os dois? Tem curiosidade em saber pra que servem os musgos na natureza? Vamos passear sobre esses conceitos enquanto usamos de referência uma espécie muito interessante, a Polytrichum commune.

As plantas são divididas, didaticamente, em quatro grupos principais, briófitas, pteridófitas, gimnospermas e angiospermas, sendo briófita o grupo que engloba as plantas mais simples, de pequeno porte, encontradas em ambientes úmidos, que não possuem vasos condutores, raízes complexas, flores ou frutos...mas calma, prometo que elas também tem sua importância.

Bem, agora o que é Polytrichum commune? Polytrichum commune é uma espécie de musgos pertencentes a família Polytrichaceae que engloba plantas comumente chamadas de “musgão” identificadas, dentre outras características, por sua aparência semelhante a cabelos desgrenhados (daí o nome, polys, significando "muitos", e thrix, significando "cabelo").

Figura 1. Musgos da família Polytrichaceae assemelham-se a fios de cabelo. Foto: James Lindsey em Ecology of Commanster

Então toda briófita é musgo? Não exatamente..., mas deixa que eu te explico! Basicamente todos os musgos são briófitas, mas nem todas as briófitas são musgos! Musgos são o que nós chamamos de briófita stricto sensu (em sentido específico) ou seja, aquelas com três partes corporais distintas nos indivíduos adultos (rizoides, cauloides e filídios), esporófitos e outras características macroscópicas do gametófito. A figura 2 traduz esse “biologuês” pra você.

 Figura 2. Anatomia básica de musgos (Fonte: https://descomplica.com.br/artigo/ainda-tem-duvidas-sobre-histologia-vegetal-tire-aqui-suas-duvidas-sobre-briofitas-e-pteridofitas/4LJ/).  

As plantas da família Polytrichaceae são encontradas em todos os continentes, incluindo regiões árticas e de altitude elevada, já o Polytrichum commune pode ser encontrado principalmente na Mata Atlântica, Cerrado e Pampa e tem a preferência por barrancos arenosos ou argilosos com pouca ou sem vegetação, solos levemente ácidos  e frequentemente em locais recém descobertos, agindo tanto quanto vegetação primária, ou seja, aquela que atua como fundadora e que prepara o ambiente pra que outras espécies consigam se estabelecer, quanto como secundária, aquela que surge após a perda parcial ou total da vegetação primária.

Ok, eu entendi o que são os tais dos Polytrichaceae, mas por que eles são importantes?

Bom, isso é fácil de responder, além de como previamente dito, oferecerem condições pra que outras espécies se estabeleçam em áreas perturbadas e ocuparem superfícies de difícil acesso pra outras plantas (beiras de rios e áreas rochosas, por exemplo), as briófitas, em geral, ocupam um importante papel no monitoramento ambiental servindo como indicadores ecológicos, tendo em vista serem muito sensíveis a mudanças nos níveis de poluição por não possuírem raízes complexas que filtrem poluentes. Além disso, são ótimas em evitar desbarrancamentos, por protegerem o solo de umidade excessiva.

E aí, curtindo um pouco mais as briófitas agora? Elas têm muita história pra contar já que são bem antigas, datando lá da era carbonífera (entre 359 e 299 milhões de anos atrás) praticamente um registro histórico em forma de ser vivo!

Referências

CORREIA, L. C. B. Brioflora epifítica e rupícola da Mata da Câmara, São Roque – SP. Levantamento florístico e confecção de material didático. 2016. 47f. Trabalho de Conclusão de curso (Licenciatura em Ciências Biológicas). Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo, São Roque, 2016.

GLIME, J. M. 2007. Medicine. In: GLIME, J. M. Bryophyte Ecology. v. 5. Uses. Ebook sponsored by Michigan Technological University and the International Association of Bryologists. Disponível em: <http://www.bryoecol.mtu.edu> Acesso em: 31 maio 2020.

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